Canequinhas da Ju
Já faz alguns minutos que caminho sem rumo pela casa. Vasculho estantes e gavetas, olho sob as almofadas do sofá. Não consigo encontrar meu Nokia em lugar nenhum.
Perdido há semanas, cogitei levá-lo a um offsite do trabalho no início de outubro em Madri. Minha ideia era comprar um mapa, imprimir as passagens, sobreviver offline por alguns dias em um país estrangeiro para poder escrever sobre a experiência aqui.
Acabei voando com meus bilhetes salvos na wallet, achei mais fácil pedir um Uber do que conversar com taxistas no aeroporto e segui o Google Maps para caminhar do hotel ao escritório.
Enquanto esperava o voo de volta assistindo a vídeos curtos no YouTube (sim, voltei a baixá-lo no celular), vi o de um humorista português que fazia piada dizendo que não existem mais hobbies. Dizia ele que ia pescar com seu pai, não pegava nada e ainda passava na peixaria pra comprar um peixe, só pra dizer à sua mãe que haviam pescado alguma coisa. Os hobbies existiam para se perder dinheiro. Hoje não, tudo precisa ser monetizado. Vai a uma aula de cerâmica, faz uma caneca nojenta e põe-a para vender no Instagram na página "Canequinhas da Ju".
Este blog é uma página de "Canequinhas da Ju".
Quando comecei a escrever, minha ideia inicial era que em algum momento este blog pudesse transformar-se em um livro. Era sim uma forma de voltar a escrever, mas mais que isso, era também a possibilidade de transformar algo que eu gosto de fazer em algo que pudesse me sustentar.
Maior do que o sonho da monetização é a ilusão de que ela será rápida e fácil. Se há tanta gente ganhando dinheiro na internet, por que não eu? Não me parecia, afinal, tão difícil assim viver sem um celular, escrever sobre isso e, quem sabe, ganhar uns trocados.
Há quem tenha se submetido a experimentos mais extremos que o meu. Lembro-me do jornalista que compilou 72 regras bíblicas (que iam de não comer porco a não usar roupas que misturassem lã e linho) e viveu de acordo com elas por um ano, registrando tudo no livro "Um Ano Vivendo Segundo a Bíblia".
É preciso comprometimento pra fazer algo assim. Mais que comprometimento, é preciso não temer o fracasso e estar disposto a suportar dificuldades financeiras caso as coisas deem errado. O experimento transforma-se em trabalho, que pode render frutos ou não.
Eu não estou tão comprometido assim. Indisposto a abandonar o conforto de um trabalho relativamente estável, falta-me tempo e sobra-me cansaço pra colocar-me em situações que gerem boas histórias. A falta de material me limita, a limitação me aborrece e o aborrecimento faz com que eu pense em desistir.
Mas então eu volto aos hobbies.
Fazer algo inútil pelo simples prazer de fazê-lo parece-me um contrassenso, algo quase criminoso em um mundo que preza pela produtividade. Mas, voltando às origens deste blog, era justamente da necessidade de ser produtivo o tempo todo e de estar constantemente conectado que eu queria me livrar.
Encontro, enfim, o Nokia perdido sob uma pilha de papéis que se acumula em um canto esquecido da mesa de jantar.
Ainda não sei direito o que farei com ele, mas de qualquer forma o coloco para carregar.